Caminhos do voto: A luta das mulheres se estendeu até o século XXI
Mais de 100 separam Nova Zelândia e Arábia Saudita, na luta pelos direitos das mulheres

Em setembro de 2015, 130 mil mulheres estavam registradas para comparecer às juntas eleitorais da Arábia Saudita para participar pela primeira vez da escolha dos seus representantes nas câmaras municipais. O emirado do Oriente Médio foi o último país a reconhecer o direito ao voto feminino. A conquista chegou 122 anos depois da Nova Zelândia, onde, em 1893, o parlamento recebeu uma petição com 32 mil assinaturas demandando que fosse assegurado às neozelandesas o direito ao voto. No meio dessa história, está a luta de mulheres de todo o mundo que, além de exigirem o reconhecimento de que podem votar e também serem votadas, se mobilizaram para a conquista de outros direitos civis.
As campanhas de mobilização feminina pelo voto tiveram início no final do século XIX e começo do XX, com as sufragistas inglesas liderando o processo. A historiadora Mônica Karawejczyk, afirma que a conquista do voto era parte da luta pela cidadania feminina. “As sufragistas acreditavam que as muitas desigualdades legais, econômicas e educacionais com que se confrontavam jamais seriam corrigidas, enquanto não tivessem o direito de voto”, explicou no artigo As “suffragettes e a luta pelo voto feminino”, publicado em 2013, na revista História, Imagem e Narrativas.
As ruas de Londres, nos anos de 1900, foram testemunhas de passeatas, que terminavam em atos de vandalismo e prisão. As suffragettes, termo que designava as integrantes do movimento pelo voto, agiam sob o lema “Ações e não palavras”, e quebravam vitrines com martelos que carregavam escondido nas roupas, como parte da estratégia para chamar a atenção da opinião pública para a importância do movimento. Inspirada por suas conterrâneas, a inglesa Kate Sheppard liderou a campanha pelo voto feminino na Nova Zelândia. A Austrália aderiu logo depois, em 1902.
As notícias sobre os confrontos na Inglaterra correram o mundo, estimulando estadunidenses e brasileiras a também exigirem participar do processo eleitoral. Nos Estados Unidos, a conquista do voto feminino começou de forma regional, com a inclusão do direito paulatinamente estado a estado. A inclusão da décima nona emenda pelo congresso americano só se deu em 1920, assegurando o direito nacionalmente. No Brasil, o voto feminino foi permitido em 1932 (saiba mais na primeira reportagem da série).
A eclosão da Primeira Guerra (1914-1918), suspendeu temporariamente a ânsia feminina pelo direito ao voto, drenando todas as forças dos países envolvidos para os combates no front. Apenas na Rússia (1917) e em países que sob a esfera de influência da então União Soviética, como Armênia, Estônia, Geórgia, Azerbaijão e Quirguistão, aprovaram o direito de voto para as mulheres ainda na década de 1910.
Foi apenas em 1918 e 1920, que Reino Unido e Estados Unidos incluíram as mulheres como parte de seus cidadãos aptos a votar. Mas no caso das inglesas, apenas as maiores de 30 anos tinham o direito assegurado. A barreira foi eliminada apenas em 1928, quando foi estabelecida a idade de 21 anos para o exercício do voto.
A exemplo da Primeira Guerra, o conflito que aconteceu entre 1939 e 1945 também trouxe reflexos para a conquista do voto em países que resistiam à concedê-lo. É o caso da França, onde a Revolução de 1789 pregava a liberdade, igualdade e fraternidade entre todos, mas que na prática demorou até 1944 para que esses ideais fossem satisfeitos, dando às francesas o acesso ao processo da escolha democrática como eleitoras.
Outro paradoxo é o caso da Grécia, berço da democracia ocidental. Na Antiguidade, apenas cidadãos homens, adultos, filhos de pais atenienses e que tivessem prestado serviço militar estavam aptos a participar das eleições. Ou seja, mulheres e escravizados eram excluídos. A situação só mudou em 1952, quando as gregas mudaram de status.
A Arábia Saudita foi o último país a ampliar o direito ao voto, autorizando que as mulheres fossem às urnas. A conquista se deu em 2011, mas a definição das normas e procedimento para viabilizar a votação feminina se estendeu até 2015. Mas, a exemplo do que aconteceu em outros países ao longo do tempo, na esteira da conquista do voto, as sauditas também testemunharam avanços em outras esferas de suas vidas. Um exemplo disso é a possibilidade de serem motoristas, o que foi permitido em 2018.

