Representatividade feminina: o desafio de traduzir a maioria do eleitorado em cadeiras no poder
Apesar de serem a maioria da população, as brasileiras ainda ocupam menos de 20% das vagas nos parlamentos

Embora as mulheres somem cerca de 51,5% da população brasileira e representem 54% do total do eleitorado, elas ainda são uma minoria absoluta nos espaços de decisão. No Brasil, a política ainda é um terreno predominantemente masculino, e os números mostram que o caminho para a igualdade de gênero nas urnas é longo e cheio de obstáculos.
Quando olhamos para o resto do planeta, o Brasil aparece em uma posição bastante desconfortável. No mapa Mulheres na Política: 2025, divulgado pela ONU Mulheres e pela União Interparlamentar (UIP), o nosso país ocupa a 133ª posição no ranking global de representação feminina nos parlamentos.
A título de comparação, a média de mulheres nos parlamentos das Américas é de 35,4%, mas o Brasil registra índices bem menores: apenas 18,1% da Câmara dos Deputados (93 parlamentares) e 19,8% do Senado (16 mulheres) são ocupados por elas. Enquanto isso, países como Ruanda (61,3%), Cuba (53,2%) e Bolívia (53,1%) lideram o ranking mundial de presença feminina em suas casas legislativas. No que diz respeito ao comando de ministérios, nações como Nicarágua, Finlândia e Chile já atingiram a paridade, com 50% ou mais de mulheres nos cargos de chefia.
Outro exemplo interessante é Portugal. Lá, as mulheres ocupam 34,8% das cadeiras do parlamento (51º lugar no ranking mundial). Vale destacar que no país europeu as mulheres, sem distinção de alfabetização ou condição social, só tiveram seus direitos políticos com a Constituição de 1976. E somente em 2006 foi instituída cota de gênero no país e, ainda assim, aparece à frente do Brasil, o qual adota as cotas de gênero há 31 anos (Lei 9.100/95).
Por outro lado, alguns países sequer têm mulheres nas Câmaras, como Omã, onde nenhuma mulher ocupa um dos 90 assentos; e no Iêmen, cujos 245 cargos são ocupados integralmente por homens.
Pernambuco: um ano de marcas históricas
Nas eleições de 2022, pela primeira vez, os pernambucanos elegeram uma mulher para o Governo do Estado, Raquel Lyra, que assumiu o cargo tendo também uma mulher como vice-governadora, Priscila Krause. Na eleição para o Senado Federal, Teresa Leitão foi eleita senadora por Pernambuco.
Na Câmara dos Deputados, o estado bateu recorde ao eleger três deputadas federais: Clarissa Tércio, Maria Arraes e Iza Arruda. Já para a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) foram eleitas seis deputadas estaduais.
Por que a representatividade ainda é baixa?
Se as mulheres são a maioria do eleitorado, por que ainda são tão poucas nos cargos políticos e de poder? De acordo com a cientista política Priscila Lapa,a presença feminina na política brasileira até tem crescido nos últimos anos, mas ainda de forma lenta e marcada por obstáculos estruturais.
“A representatividade feminina nas casas legislativas no Brasil vem aumentando. Os números vêm subindo, mas não de maneira exponencial, e sim de forma paulatina”, explica.
Para a pesquisadora, parte desse cenário se explica pela resistência existente dentro dos próprios partidos políticos. Apesar de avanços na legislação, como cotas de gênero e a destinação obrigatória de recursos para candidaturas femininas, essas medidas muitas vezes são cumpridas apenas formalmente. “A gente avançou muito na questão da cota de gênero e no carimbo dos recursos de campanha para candidaturas femininas, mas ainda temos uma base partidária muito pouco favorável à ampliação da participação das mulheres. Muitas vezes o cumprimento da legislação é pró forma, mais por receio de punição da Justiça Eleitoral do que por um processo efetivamente inclusivo”, explica.
Lapa também destaca que as mulheres ainda participam pouco dos espaços de decisão dentro das siglas, o que impacta diretamente na competitividade das candidaturas femininas. “Se elas não participam dessa base estruturante das candidaturas, acabam partindo de uma posição menos competitiva”, diz.
Além das barreiras políticas, a cientista política também aponta fatores sociais. Muitas mulheres que conseguem ingressar na política o fazem por meio de vínculos familiares, como parentesco com políticos homens, o que demonstra a dificuldade de construir trajetórias independentes dentro do sistema. Somam-se a isso os desafios de conciliar a carreira política com as responsabilidades domésticas e de cuidado, historicamente atribuídas às mulheres.
“Na política não tem hora, não tem dia. É uma atividade que exige disponibilidade constante. Conciliar isso com os papéis de cuidado que a sociedade ainda coloca majoritariamente sobre as mulheres torna o caminho ainda mais desafiador”, conclui.
Nesta sexta- (13), na última reportagem da série Caminhos do Voto Feminino, vamos detalhar as ferramentas e recursos da Justiça Eleitoral no combate à desigualdade de gênero.
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