O Despertar das Leoas: a conquista do voto feminino em Pernambuco

A segunda reportagem da série especial sobre a conquista do voto feminino traz a história das pernambucanas que abriram caminho para a participação feminina na política

A segunda reportagem da série especial sobre a conquista do voto feminino traz a história das pe...

Os movimentos de mulheres em prol de direitos, inclusive o do voto, fervilhavam em vários estados brasileiros desde o início do século XX, com uma atuação mais intensa a partir dos anos 20. No Brasil, a Proclamação da República trouxe promessas de democracia, mas, na prática, as mulheres continuavam excluídas do jogo político por não serem consideradas cidadãs. Em Pernambuco, não foi diferente.

Neste cenário de transição, onde a política ainda era vista como um território masculino, o estado viu nascer uma cultura política feminista vibrante, alimentada por debates na imprensa e pela coragem de mulheres letradas que se recusavam a ficar restritas ao ambiente doméstico. Três nomes se destacam nessa trajetória aqui no estado: Edwiges, Martha e Celina.

Celina Nigro: a voz que se tornou voto

Enquanto as lideranças organizavam o movimento, Celina Nigro entrou para a história como a personificação da conquista prática em Pernambuco. Soprano de sucesso internacional e reverenciada no Rio de Janeiro, Celina integrava a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (FPPF), entidade atuante nas décadas de 1920 e 1930, com foco na defesa dos direitos das mulheres. 

Graças à sua projeção artística e engajamento, ela foi a primeira mulher a se tornar oficialmente apta a votar e ser votada em Pernambuco, com seu alistamento deferido em 28 de dezembro de 1932. Sua conquista foi registrada pelo Diario de Pernambuco, servindo de exemplo para milhares de outras mulheres que viriam a exercer o direito ao sufrágio logo em seguida.

Edwiges de Sá Pereira: a força da educação

Nascida em Barreiros, Edwiges foi uma figura central da intelectualidade pernambucana. Ela acreditava que a libertação feminina passava obrigatoriamente pela educação e pelo trabalho. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Pernambucana de Letras (APL) e na Associação de Imprensa de Pernambuco (AIP).

Em 1931, Edwiges fundou a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, uma filial da organização nacional liderada por Bertha Lutz. Com um perfil mais conservador e de tradição católica, ela defendia que a mulher poderia atuar na vida pública sem abandonar seus "deveres sagrados" no lar. Para Edwiges, o voto era uma ferramenta de justiça social para que a mulher pudesse colaborar com o progresso da nação.

Edwiges conseguiu o direito de votar e também de ser votada em 1933. Ela foi candidata na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, em maio daquele ano, mas não se elegeu.

Martha de Hollanda: a "companheira incendiária"

Se Edwiges buscava a conciliação, Martha de Hollanda era a personificação da rebeldia. Natural de Vitória de Santo Antão, Martha escandalizava a sociedade da época: fumava charutos em público, usava vestidos decotados e defendia abertamente o divórcio.

Martha fundou a Cruzada Feminista Brasileira, em 1931. Um grupo que, embora menor, era extremamente vocal e focado na igualdade absoluta de direitos. Antes mesmo da lei nacional mudar, em 1928, ela conseguiu uma vitória histórica: o juiz de sua cidade natal deferiu seu pedido de alistamento eleitoral, tornando-a a primeira eleitora de Pernambuco, embora o registro tenha sido anulado posteriormente por instâncias superiores.

Martha conseguiu somente em 15 de março de 1933 o tão sonhado direito de virar uma eleitora e também candidata. Em maio, assim como Edwiges, se candidatou à Constituinte, mas não conseguiu se eleger. 

Confira o documentário sobre As Pioneiras

Um movimento de lutas e divergências

O feminismo pernambucano daquela época não era um bloco único. As divergências entre o grupo de Edwiges e o de Martha eram tão intensas que a imprensa da época noticiava que o "feminismo pernambucano estava fervendo". Apesar das brigas internas e do olhar desconfiado de uma sociedade patriarcal, essas mulheres ocuparam as ruas, as rádios e as páginas dos jornais para formar uma opinião pública favorável aos seus direitos.

Foi graças ao esforço dessas pioneiras que o Código Eleitoral de 1932 e a Constituição de 1934 finalmente reconheceram a mulher como cidadã plena. Como dizia o lema da Cruzada de Martha de Hollanda: "Ad astra per aspera" — pelos caminhos difíceis, chegamos aos astros.

Na próxima reportagem da série, vamos viajar pela história do voto feminino no mundo e conhecer as nações que primeiro garantiram às mulheres o direito ao voto.

Leia mais: Há 94 anos, mulheres conquistavam o direito ao voto no Brasil

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